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sábado, 21 de agosto de 2010

Depois de um BOM tempo sem postar....

Noturno, o rio das horas flui

De seu manancial, que é o amanhã

Eterno...

(Miguel de Unamuno)

Gosto muito de Borges! Escritor argentino, Jorge Luis Borges, é um desses escritores que nossa classificação cartesiana sempre sofre um bocado, não dá pra reduzir a uma só. A poesia, filosofia, traduções, ensaios, críticas de cinema, contos, quase tudo, às vezes, no mesmo parágrafo.

Em "História da eternidade" (editora Globo, 2001) Borges passeia pelo tempo, ou melhor, pela natureza do tempo. Vai a Platão para nos mostrar que o tempo é uma imagem móvel da eternidade. Em santo Agostinho e o mistério da trindade, nas mil e uma noites de Scherazade, na poesia da Islândia. Ler Borges é uma delícia. Em cada dezembro, sinto essa presença do tempo circular de Borges, apesar de certa “ansiedade” para terminar o ano, e começar outro, penso que ele estava correto ao usar o conceito de eternidade, e não em sucessividade.

Mas não podemos negar que as comidas de final de ano são deliciosas, apesar de ainda usarmos muitas comidas de natal, pensando no frio – que não é o nosso caso, pois as festas de final de ano são em dias quentes. Não consigo ver sentido em comidas pesadas, calóricas, esperando neve e papai Noel. Mas como não comemoramos aqui no Brasil o dia de ação de graças, só sobra o natal para comermos um peru assado.

Ingredientes:

Um peru

08 laranjas

Sal

02 cebolas picadas

Alho picado

Farinha de rosca

Damascos

Alecrim

Modo de fazer:

Para temperar o Peru:

Pique o alho, a cebola, o suco de seis laranjas, sal (se o peru for temperado, não é necessário salgar) e o alecrim. Deixe o peru no tempero por algumas horas. Retire o tempero e reserve. Após lavar bem duas laranjas, faça diversos furos e coloque as laranjas dentro do peru. Coloque o peru em uma assadeira coberto pelo papel laminado e leve para assar. Meia hora antes de terminar de assar, retire o papel laminado e regue com o tempero que foi reservado.

Para o recheio:

Frite alho e cebola picados, quando estiver quase dourados, acrescente os damascos picados e uma pitada de sal, refogue e coloque a farinha de rosca

Retire as laranjas de dentro do peru e coloque o recheio, decore o prato com a farofa.

Feliz Peru Assado!

e chovesse agora em teu olhar

e o tempo esquecesse de passar

e se o vento espalhasse pelo mar

os sonhos que esqueceram de acordar

Em uma das colunas passadas, falei sobre o tempo. A eternidade do Borges. Nesses atípicos dias de final de ano, assisti “o retrato de Dorian Gray”. Já tinha lido o livro e gostei do filme. Um jovem aristocrata inglês tem seu retrato pintado quando jovem e, com o passar do tempo ele não envelhece, quem envelhece é a sua imagem no retrato.

Tema recorrente, o tempo me atrai. Tudo tem seu tempo, já dizia um dos versículos da bíblia (Tudo neste mundo tem seu tempo; cada coisa tem sua ocasião. Há um tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar... - Eclesiastes 3, 1-8).

Quando comecei a cozinhar, logo percebi o quanto a noção exata do “tempo” é importante. Existe uma relação que muitas vezes acaba sendo completamente intuitiva em saber “quanto tempo demora pra comida ficar pronta”, a pergunta mais ouvida quando estamos na cozinha e o cheiro da comida quase pronta provoca o olfato de todos.

Fazer um ovo frito é rápido, cozinhar um ovo demora mais, fios de ovos então? Um tempão! Claro que depende do equipamento utilizado, quantidade de calor, o ponto que esperamos do alimento e da nossa fome, pois muitas vezes a fome acelera o cozinheiro. “Quem tem pressa come cru e insosso”, já dizia o velho provérbio português.

Como organizar esses tempos diferentes de cada um dos pratos? Esse domínio só o tempo lhe dá, a experiência é fundamental, mas algumas dicas sempre funcionam: sempre o prato mais demorado deve ser começado por primeiro. Pode parecer óbvio demais, e é, mas nem sempre fazemos isso. Deixe sempre para lavar as folhas que for utilizar em saladas perto de servi-las, ficam mais saborosas. Nas carnes assadas, existe um cálculo para o tempo de cozimento em forno médio: 1 hora, mais 30 minutos para cada quilo do peso da carne. Como exemplo de um pernil de 4 quilos: 1 hora mais 4 x 30 minutos = 3 horas de cozimento. Uma hora antes de servir, descubra e vire até o que fique pronto.

Depois de tanto falar no tempo, trago uma receita rapidinha, pra não perdermos muito tempo...

Pão de minuto

Ingredientes


3 Xícaras de farinha de trigo;

2 Colheres (sopa) de açúcar;

2 Colheres (sopa) de margarina;

1 Xícara de leite;

1 Ovo;

1 Pitada de sal;

2 Colheres (sopa) de fermento químico.

Modo de Preparo

Misture todos os ingredientes, até a massa ficar uniforme. Faça os pães com uma colher e coloque em uma forma untada e leve ao forno médio para assar.

Sou um cozinheiro acidental! Quer dizer, não foi só o acaso que me fez gostar de cozinhar. Uma conjunção familiar ajudou bastante: mãe, avó, tia – grandes cozinheiras por perto - acrescido do meu pavor irracional por queijo, uns bons e divertidos amigos que se reuniam e lá estava eu na cozinha, cortando alho e cebola...

Drummond já dizia que “amar só se aprende amando...” e num misto de plágio e admiração digo que “cozinhar só se aprende cozinhando...” e errando muito!

Sim, porque o erro é fundamental nesse processo. Bom professor para um aluno atento, o erro ensina. “Nunca cometo um erro uma vez, cometo duas, três, quatro, cinco, seis. Só pra saber que o erro tem vez", como diria Leminski.

Alguns desses erros acabam virando descobertas divertidas e saborosas que acabam sendo incorporadas ao nosso cardápio, depois de passado o susto que nosso paladar sempre leva com novos sabores.

Um erro comum, mesmo para cozinheiros experientes é começar uma receita sem verificar se tem todos os ingredientes, começamos a fazer a receita e lá pelas tantas, faltou algo!

Já vivi algumas vezes essa situação e em muitas delas, perdi a receita. Mas um desses erros me fez descobrir uma nova maneira de fazer um bolo de fubá, que começou sem querer. Era pra ser um delicioso bolo de chocolate – nega maluca – como chamamos aqui. Comecei o bolo e quando já havia quebrado os ovos vi que não tinha chocolate, fundamental num bolo de chocolate, sem dúvida!

O que fazer? O improviso me fez descobrir essa receita, trocando o chocolate por fubá que batizei com a mesma regra politicamente incorreta da nega maluca, criando uma massa mais leve que os bolos de fubá tradicionais. Com vocês, a minha:

Polaca Louca

Ingredientes:

02 xícaras de farinha de trigo

01 xícara de açúcar

01 xícara de fubá

01 xícara de água quente

01 xícara de óleo

01 colher (pequena) de sal

01 colher (grande) de fermento para bolo

03 ovos

Modo de fazer:

Misture todos os ingredientes secos, adicione os ovos, o óleo e a água quente. Após mexer, colocar o fermento. Coloque em uma forma previamente untada e leve ao fogo. Aproximadamente 40 minutos no forno.

Gosto de temas encomendados. Esse é um deles! Falar sobre o mês de junho, com o dia dos namorados e, claro, uma receita deliciosa. Como sempre ouço música quando estou escrevendo, coloquei uma cantora da nova geração que gosto bastante, Bruna Caran, cantando uma música de Otávio Toledo chamada signo de câncer.

Mês de junho
Qual é seu nome eu sei
Tempo de frio prazer
O mesmo nome hei de ter

Frio que rasga os lábios meus
Ser cria de um sábio...

Mês de junho
Tempo de festas quintais
Temos os signos iguais
Sonhos e planos reais

Ser que morde os lábios meus
Ventos que trazem presságios de um...

Mês de junho
Qual é seu nome eu sei
Tempo de frio prazer
O mesmo nome hei de ter

“Frio que rasga os lábios meus...”, diz a letra. As mulheres protegem seus lábios com um batom, e mesmo praticando muitos beijos, ele não irá proteger os nossos. E pra que o frio não os rasgue, como diz a música, normalmente usamos manteiga de cacau. Chocolate é feito de cacau e namorados são feitos de beijo na boca. Com essa combinação e com o frio do mês de junho, falta um bom filme e a uma boa comidinha.

Assisti a dois filmes ótimos com a Meryl Streep, e em ambos a paixão pela culinária ilumina o roteiro. Julie & Julia (EUA, 2009). A Julie resolve fazer todas as receitas do livro da Julia (Julia Child, autora do livro “Master of art of french cooking”), uma por dia, escrevendo essa experiência em um blog. O outro filme é Simplesmente Complicado (It’s Complicated, EUA, 2009), uma comédia romântica (ainda não sei direito que gênero é esse!) ótima pra um final de noite. Faltou a receita! E que tal um fondue? Uma ótima maneira de se preparar, como diria Vinicius, comidinhas para depois do amor...

Fondue de Chocolate

Ingredientes
- 200g de creme de leite light
- 200g de chocolate ao leite
- 200g de chocolate amargo

- Frutas diversas (Abacaxi, morango, uva, kiwi, pêra, maça)

Modo de Preparo

Corte diversas frutas em pedaços pequenos, que depois serão mergulhadas no creme de chocolate. Derreta os dois chocolates, o ao leite e o chocolate amargo em banho maria. Depois acrescente e misture o creme de leite e mexa até formar um creme homogêneo. Passe esse creme para a panela de fondue já aquecida, espete as frutas e divirta-se. (caso fique um pouco denso, acrescente um pouco de leite.)

depois pensemos, crianças adultas, que a vida
passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
vai para um mar muito longe, para o pé do fado,
mais longe que os deuses.

(fernando pessoa)

Saramago morreu! Confesso que não era fã do autor, li apenas 2 livros dele e não fui “fisgado” pelo seu estilo, e com isso, conheço pouco de sua obra. Mas gostava muito do ativismo intelectual e político do Saramago – um comunista das “antigas” e ateu - sem medo de entrar em boas brigas defendendo suas convicções! Polemicas à parte, como tem acontecido com freqüência quando morre um desses que fazem a diferença na história do homem, a mídia tem feito ótimas coberturas, garimpando imagens e fatos da vida do que se vai. Um dos momentos que me tocou foi quando Saramago recebeu o premio Nobel e, entre tantas coisas que falou em seu belíssimo discurso, lembrou de seus avós: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”, falando de seu avô e lembrou de uma frase que sua avó dizia: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer ", talvez no momento mais bonito desse discurso.

Numa aceitação imediata, eu, neto de português, vesti a frase sem ajustes. Meu avô era português e veio para o Brasil no mesmo ano em que o Saramago nasceu, 1922, trazendo com ele o prazer pela boa comida portuguesa. Depois de casar com minha avó, esta aprendeu algumas dessas receitas portuguesas, muitas delas com bacalhau, que fazem parte dos sabores da minha infância. Julho é mês da avó e a data foi definida no calendário litúrgico no dia 26 em uma referência à nossa senhora de Sant Ana, mão de Maria e, portanto, avó de Jesus, também padroeira de Ponta Grossa.

Nesse gelado mês de julho, trago uma receita portuguesa que minha avó fazia - com a melancolia típica de um adeus - para o nosso velho comunista...

Bolinho de Bacalhau

Ingredientes:

500 g de bacalhau cozido e desfiado

500 g de batata cozida

2 gemas

4 colheres (sopa) de trigo

1 colher (sobremesa) de fermento químico

1/2 xícara de cheiro verde picado

Óleo para fritar

Modo de fazer:

Depois dos ingredientes já frios, misture todos os ingredientes, formando uma massa homogênea. Faça os bolinhos e frite no óleo quente. Receita simples e deliciosa.